As empresas participam da distribuição de oportunidades todos os dias. Ao definir os requisitos de uma vaga, estabelecer salários, escolher quem será promovido ou negociar com fornecedores, as companhias interferem – direta ou indiretamente – nas condições de vida de pessoas e famílias. Essas decisões podem contribuir para reduzir, manter e ampliar as distâncias sociais, mesmo quando a organização declara compromisso com a sustentabilidade ou faz investimentos em projetos sociais.
Quando olhamos para os custos econômicos da desigualdade, essa responsabilidade ganha outra dimensão. A exclusão limita a formação e o aproveitamento de talentos, restringe mercados e enfraquece as condições de desenvolvimento das quais as próprias empresas dependem e se beneficiam. Avaliar o investimento necessário para enfrentar a barreira das desigualdades exige considerar também quanto custa preservá-las.
E já existem estudos sérios que apontam os impactos econômicos e financeiros das desigualdades. Entre eles está o livro Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas, dos economistas Michael França e Daniel Duque. Projeto realizado com o Instituto Ethos e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (NERI), a obra reúne evidências que ajudam a compreender por que a redução das desigualdades é um tema que deve fazer parte da estratégia e da gestão empresarial.
Loteria do nascimento
O tamanho do desafio brasileiro aparece nas comparações internacionais. O estudo aponta que, no ranking elaborado a partir do Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, o Brasil ocupa a quinta posição – entre 216 países e territórios – em desigualdade de renda. Aqui, os 10% mais ricos concentram 59,1% da renda nacional, enquanto a metade mais pobre recebe 9,3%. A classificação considera a relação entre a renda média desses dois grupos, um recorte que explicita a distância entre o topo e a base da distribuição da riqueza gerada no país.
Os efeitos dessa concentração se acumulam ao longo do tempo. “A desigualdade não é uma foto estática”, afirma Michael durante o lançamento do livro, realizado na Conferência Ethos 2026. Uma forma de compreender esse processo é observar como as condições de uma geração influenciam as possibilidades da seguinte.
Os autores propõem um exercício hipotético: dois irmãos gêmeos recebem a mesma educação e têm o mesmo contexto familiar. Ao concluir a universidade, um decide permanecer em São Paulo e se dedicar intensamente à carreira. O outro vai para Itacaré, trabalha com artesanato e aulas de surfe e prioriza uma vida mais tranquila. O primeiro acumula patrimônio, mas chega ao fim da vida com problemas de saúde e pouca satisfação. O segundo reúne menos recursos, mas desfruta de uma vida mais saudável e contente diante da trajetória escolhida.
LEIA MAIS
Proteção de defensores de direitos humanos: um guia para a atuação empresarial
A questão se torna mais complexa quando entram em cena os filhos desses irmãos: eles não escolheram a trajetória dos pais, mas herdam condições distintas para construir a própria vida.
Recursos financeiros, redes de contato e acesso à educação e à saúde podem ampliar as possibilidades de uns e restringir as de outros. Sem serviços públicos de qualidade e mecanismos que ampliem oportunidades, diferenças produzidas em uma geração tendem a se transformar em desvantagens para a próxima.
É o que os autores chamam de loteria do nascimento. O exercício imaginativo, nesse caso, parte de adultos que tiveram condições semelhantes. No Brasil real, as diferenças já estão presentes desde o início da vida, atravessadas por renda, raça, gênero e território. A própria liberdade de escolher uma trajetória é distribuída de forma desigual no país.
Além do desperdício de talentos, as perdas também aparecem no consumo. Ter uma população numerosa não assegura, por si só, um mercado capaz de sustentar a expansão dos negócios. Quando os recursos estão muito concentrados, uma parcela expressiva das famílias tem possibilidades limitadas de consumir, restringindo a escala que empresas de diferentes setores poderiam alcançar.
Barreiras invisíveis
Isso não significa que um país desigual seja incapaz de crescer. Segundo os autores, ele pode crescer desperdiçando potencial produtivo e convivendo com tensões que corroem seus ganhos. Assim, sem diminuir o valor da dignidade e do direito a oportunidades – enfrentar o racismo e a discriminação, por exemplo, não pode depender da comprovação de um retorno financeiro –, a discussão econômica das desigualdades amplia as razões para agir.
É nesse país e nesse cenário que as empresas operam e onde vive a sua força de trabalho. O trajeto até o emprego, a responsabilidade pelo cuidado de crianças e familiares, a qualidade da formação e a capacidade de atravessar uma emergência financeira acompanham as pessoas dentro das organizações. Uma gestão empresarial comprometida com a sustentabilidade, notadamente no Brasil, precisa considerar essas condições de vida e incluir a redução das desigualdades entre os seus objetivos e metas ESG.
Isso começa pela eliminação de barreiras invisíveis no ingresso ao mercado de trabalho, com destaque para as empresas privadas. Exigir inglês para uma função que não utiliza o idioma, recrutar apenas em determinadas universidades ou depender excessivamente de indicações pode transformar vantagens de origem em filtros de contratação. Rever esses critérios, ampliar os canais de seleção e oferecer formação são maneiras de criar oportunidades com condições reais de participação.
LEIA MAIS
Agenda ESG: nuvem passageira ou compromisso ético e visão estratégica das empresas?
A permanência também exige atenção ao ambiente e à organização do trabalho. Políticas de cuidado, acessibilidade, previsibilidade de jornada e canais confiáveis para enfrentar assédio e discriminação precisam responder a obstáculos concretos. Contratar pessoas de grupos historicamente excluídos têm alcance limitado quando a empresa mantém condições que favorecem sua saída.
Na progressão profissional, gênero e raça devem ser analisados em conjunto. É comum que um avanço na participação feminina conviva com a ausência de mulheres negras nos cargos de maior remuneração. Ou que uma base na qual prevalece a diversidade coexista com uma liderança homogênea. Nesses cenários, é relevante ter mecanismos para examinar quem recebe projetos de maior visibilidade, quem tem acesso à formação e quais critérios orientam as promoções.
A política de remuneração também precisa integrar essa discussão. A empresa influencia diretamente a distribuição da renda gerada pelo negócio. Cabe avaliar os menores salários, os benefícios, a participação nos resultados e a distância entre as remunerações da base e do topo. Diferenças de função e responsabilidade não dispensam a análise de quanto essa estrutura amplia ou reduz as desigualdades.
Essas questões precisam chegar à governança. A área de sustentabilidade pode organizar diagnósticos, articular responsabilidades e acompanhar resultados, enquanto recursos humanos, finanças, compras e lideranças operacionais incorporam as mudanças às próprias decisões. Metas exigem orçamento, responsáveis, prazos e acompanhamento da alta gestão.
Para onde a gestão ESG deve olhar?
Na Avesso, entendemos os indicadores como subsídios para esse trabalho. Dados de contratação, remuneração, promoção e desligamento, analisados por gênero, raça e nível hierárquico, ajudam a localizar barreiras e avaliar respostas. Se a entrada de profissionais negros aumenta, mas suas oportunidades de progressão permanecem menores, o diagnóstico precisa orientar mudanças nos processos de carreira.
Medir quantas pessoas participaram de um treinamento informa o alcance da atividade; mas verificar se elas ampliaram suas oportunidades de desenvolvimento ajuda a avaliar seu resultado. Da mesma forma, uma queda no número de denúncias exige interpretação: pode indicar melhora do ambiente, mas também perda de confiança no canal. Indicadores precisam ser lidos com contexto e com escuta das pessoas afetadas.
A responsabilidade se estende às relações comerciais. Prazos de pagamento incompatíveis com o caixa de pequenos negócios e exigências desproporcionais de contratação podem excluir fornecedores, com maior ênfase justamente na rede local. Uma política de compras que pressiona preços sem considerar as condições de trabalho pode transferir custos para quem tem menor poder de negociação.
As decisões ambientais também têm efeitos distributivos. Projetos de descarbonização, mudanças tecnológicas e encerramento de operações devem considerar quem assume os custos da transição, quem precisa de qualificação e quais comunidades serão afetadas. A redução dos impactos ambientais precisa caminhar junto com a ampliação de oportunidades e a proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Existe, ainda, uma dimensão pública dessa responsabilidade. O compromisso com a equidade precisa ser coerente com as posições que as organizações defendem em associações empresariais e nos espaços de interlocução política. Apoiar condições mais amplas de acesso à educação, à saúde e ao trabalho digno contribui para uma sociedade em que a origem tenha menos peso sobre o destino.
A esperança de avançar nessa direção precisa encontrar continuidade em políticas públicas e decisões cotidianas. As empresas têm uma parcela concreta de responsabilidade nessa construção: sua atuação interfere na renda, nas condições de trabalho e nas possibilidades de mobilidade social de milhões de famílias.
Para as lideranças empresariais, assumir essa responsabilidade significa examinar como o negócio distribui renda, oportunidades e poder. Uma gestão ESG comprometida com a redução das desigualdades precisa incorporar esse efeito às suas decisões, às suas metas e à avaliação de seu desempenho.